A Síndrome Pulmonar e Cardiovascular por Hantavirus (SPCVH)
De 1993 a maio de 2005, cerca de 540 casos de SPCVH foram notificados. A maioria destes casos ocorreu nas Regiões Sul e Sudeste do país (Dados da Funasa, Ministério da Saúde, 2005). Em Ribeirão Preto e região, no Estado de São Paulo SPCVH tornou-se a partir de 1998 um problema de saúde pública, com 37 casos notificados com letalidade de aproximadamente 50%. Os casos de SPCVH ocorridos na Região de Ribeirão Preto foram diagnosticados pela apresentação clínica característica de uma doença febril aguda que evolui com pneumonia e insuficiência respiratória grave. Uma revisão de quadros clínicos apresentados por 14 pacientes da região com SPCVH mostrou que estes tinham febre, astenia e cefaléia.
Deve-se ressaltar que a doença não se iniciava com tosse, coriza, ou outros sintomas respiratórios. Após o terceiro dia de doença, em 24 a 48 horas, mudava o quadro com surgimento de tosse seca, que posteriormente se tornava produtiva e aparecia uma dispnéia aos esforços que paulatinamente evoluía para insuficiência respiratória grave.
Também, nesta fase ocorriam calafrios, náuseas e vômitos, não sendo incomum a dor abdominal e a diarréia. Este quadro acompanhava-se de taquicardia, hipotensão arterial e seguia-se por choque cardio-circulatório.
Nesta fase da doença, além da hipoxemia, elevava-se o hematócrito e ocorria plaquetopenia além de elevação nos níveis de creatinina sérica.
Uma cronologia de sinais e sintomas principais da SPCVH, bem como alterações laboratoriais, é mostrada na Figura 2 (9).

Figura 2. Cronologia de sinais, sintomas e alterações laboratoriais observados nos 14 pacientes com SPCVH.
Os 14 pacientes com SPCVH ao exame radiológico de tórax apresentavam, nos primeiros quatro dias do início dos sintomas, infiltrado intersticial bilateral tênue e difuso sugerindo pneumonia atípica. Após 48 horas a pneumopatia agravava-se e mostrava-se ao exame radiológico, como hipotransparência extensa que se difundia por todos os campos pleuro-pulmonares. O exame radiológico de tórax dos pacientes com SPCVH mostrava-se típico e, portanto, de grande importância para o diagnóstico. Na Figura 2, a evolução radiológica da paciente CB mostra o padrão radiológico da pneumopatia que ocorre na SPCVH.
Acompanhavam o surgimento da febre e da dispnéia, ao nível do quarto dia de doença, imagens radiológicas de velamento pulmonar bilateral intersticial que iam se tornando mistos, com infiltração alveolar.
Concomitante com o agravamento da insuficiência respiratória, o velamento pulmonar misto tornava-se progressivamente confluente e mais denso acometendo praticamente todos os campos pulmonares. Nesta fase, medidas terapêuticas de oxigenação, como intubação e ventilação mecânica, eram tomadas. Após aproximadamente 3 dias, o quadro radiológico começava a mostrar sinais de melhora e esta remissão era progressiva. No caso de CB, 2 semanas após o aparecimento dos sintomas, a remissão dos velamentos foi quase completa mantendo-se no último exame, ainda, infiltrado reticular nas bases pulmonares.

Figura 2 - Evolução radiológica da paciente CB com síndrome pulmonar e cardiovascular por Hantavirus : no exame de 20/6/99, observa-se velamento pulmonar de padrão misto, alveolar e intersticial, com áreas de confluência nas bases; no exame de 22/6/99, observa-se aumento em extensão e densidade dos velamentos que acometem completamente os pulmões; em 27/6/99, observa-se remissão progressiva dos infiltrados e que em 30/6/99 apresentam-se como reticulações apenas em bases pulmonares.
Com base na apresentação clínica da SPCVH observada nos 14 pacientes elaborou-se o organograma mostrado na Figura 2, com o qual propõe-se orientar o diagnóstico clínico de casos prováveis da doença, considerando fase da doença em que já existe acometimento pulmonar.
Pacientes previamente saudáveis apresentando tosse e dispnéia, mostrando à radiografia torácica hipotransparência bilateral alveolar ou mista e ao exame hematológico plaquetopenia (<130000/mm3) e hemoconcentração (hematócrito>55%) são casos prováveis de SPCVH. Deverão ser imediatamente internados e mantidos em local com acesso a recursos de terapia intensiva (10, 11).

Figura 2. Organograma para diagnóstico clínico de casos prováveis da SPCVH. HT = Hematócrito; Pl. = Contagem de plaquetas no sangue.
Fazem diagnóstico diferencial com a SPCVH as infecções virais, como a influenza, as pneumonias atípicas por micoplasma, legionelose, leptospirose, febre Q, tularemia, peste septicêmica, histoplasmose, dengue hemorrágico e nos pacientes imunocomprometidos a pneumonia por Pneumocystis carinii, e as infecções por citomegalovirus, Cryptococcus e Aspergillus (12). Em nosso meio, a pneumonia por Pneumocystis carinii como primeira manifestação da AIDS e o dengue hemorrágico em casos com derrame pleural mostram-se importantes doenças para o diagnóstico diferencial com SPCVH.