importante problema de saúde pública em todo o mundo. Estimativas da Organização Internacional do Trabalho (OIT) revelam a ocorrência anual de 160 milhões de doenças profissionais, 250 milhões de acidentes de trabalho e 330 mil óbitos, baseiam-se somente em doenças não transmissíveis.
A saúde ocupacional estuda as relações entre o trabalho e a saúde (ou doença) em diversas vertentes, como as que estão ligadas aos denominados factores de risco profissionais de natureza química, biológica ou psicossocial. Os factores de risco de natureza química são o maior grupo de agentes causais de doenças profissionais e dermatoses profissionais, que pela sua frequência e gravidade representam grande relevo na patologia e medicina do trabalho. É na maioria dos diversos sectores da saúde, e especialmente em contexto hospitalar que, pelo tipo de actividades que se desenvolvem, existe maior exposição a agentes químicos e substâncias irritantes. Desenvolvem-se pois doenças alérgicas profissionais que se afastam do conceito da tradicional doença profissional, pois não são dependentes duma dose de exposição, ainda que o fenómeno da sensibilização alérgica dependa da exposição.
A hipersensibilidade ao látex é, das doenças alérgicas profissionais, uma das principais preocupações e campos de investigação em medicina do trabalho, mas apenas uma patologia entre tantos outros inúmeros problemas relacionados com os trabalhadores da saúde. (Uva, AS., 1997- comentário ao estudo de Mª Isabel Caixeiro).
Os profissionais de saúde nem sempre foram considerados uma categoria de alto risco para acidentes de trabalho e doenças ocupacionais, mas com a exposição ocupacional a agentes químicos e biológicos infecciosos e gravosos para a sua saúde passa a assumir dimensões, proporções e custos maiores do que as estimativas podem prever. Nos serviços de saúde, o dimensionamento destes problemas é condicionada pela diferença entre dados oficiais e ocorrências, já que as notificações são um processo longo e complexo. Há ainda as restrições da legislação para o conceito de doenças profissionais, a atribuição de indeminizações, a ausência de departamentos de saúde ocupacional em muitos hospitais, a evolução sinuosa de doenças que muitas vezes os profissionais de saúde e outros trabalhadores não têm preparação suficiente para reconhecer os sintomas e sinais de todos os riscos a que são sujeitos.
2. Exposição ocupacional ao látex
Quantificar e determinar as exposições a agentes biológicos e químicos varia consoante as categorias profissionais e actividades desenvolvidas pelos profissionais. Segundo estatísticas, a equipa de enfermagem é das principais categorias expostas a material biológico, comparativamente a categorias de grau superior, sendo também o de maior número de profissionais de saúde e com maior contacto directo com doentes e procedimentos envolvendo sangue, equipamentos de protecção individual, seringas e luvas de látex; sendo estas últimas reconhecidas há alguns anos como factor etiológico e /ou de agravamento de dermatoses profissionais. Os médicos cirurgiões podem ter que proceder a cerca de 300 a 500 procedimentos cirúrgicos por ano, estando sujeitos entre 6 a 8 exposições percutâneas a agentes biológicos.
Normalmente são os estudantes de medicina os mais afectados, registando-se 12% de casos de contaminação ao vírus HIV comparativamente a médicos clínicos.
A NIOSH (National Institutute for Occupational Safety and Health), criada na sequência da Acta ocupacional da Segurança e Saúde nos EUA e fazendo parte do C.D.C. (Center of Disease Control and Prevention), recomenda o uso de EPI's e luvas aquando da manipulação de materiais infecciosos, como é especificado nas guias de precauções universais da C.D.C.. A NIOSH é a única instituição federal nos EUA mandatada para efectuar pesquisas e treinar profissionais na saúde e segurança nos locais de trabalho, e apresenta recomendações de forma a proteger os trabalhadores sujeitos à exposição ocupacional à borracha natural de látex. A alergia ao látex é reconhecida nos EUA desde1970, quer pelo crescente número de profissionais dos cuidados de saúde afectados, quer pelo registo dos mais de 1000 relatórios de efeitos adversos por exposição ao látex no Federal Drug Administration, incluíndo 15 mortes, dados de 1988 a 1992.
Podem-se apontar diversas razões para o elevado número de alergias ao látex [Truscott,
1995]:
1. Os profissionais confiam e usam crescentemente luvas de látex para prevenir a transmissão de vírus como a hepatiteB, HIV e outros agentes infecciosos.
2. Desde que é obrigatório o fornecimento de equipamentos de protecção individual, que são na sua maioria de látex de borracha natural;
3. Alguns produtores de luvas aumentaram o número de produção de luvas de látex devido às elevadas exigências de mercado deste tipo de luvas, recorrendo a materiais e meios de produção mais baratos; O processo de manufactura das luvas retirando as proteínas do látex é bastante dispendioso, podendo-se encontrar luvas com diferentes concentrações de proteínas pois a sua extracção completa não é possível; alterações futuras nos processos de fabricação de produtos de látex poderão no futuro levar a um desenvolvimento de novas propostas e recomendações relativamente à escolha desses produtos.
4. Os profissionais de saúde estão muitas vezes inconscientes dos riscos a que estão sujeitos, e apesar da crescente familiaridade com o problema da alergia ao látex e desenvolvimento de métodos de diagnóstico entre a comunidade médica, muitos profissionais não têm conhecimento das recomendações e procedimentos mais apropriados para a prevenção da exposição a este agente;
3. O Látex
O látex é um líquido leitoso produzido por células produtoras de látex da árvore Hevea braziliensis (árvores da borracha) e contém polisopreno, lipídeos, fosfolípidos e proteínas. São comuns os produtos manufacturados a partir deste líquido, misturado com outros compostos, originando produtos de látex natural de borracha. Usando diferentes métodos, o látex pode ser processado, criando uma variedade de produtos derivados do látex de borracha natural. Durante a fabricação são adicionados produtos químicos para aumentar a velocidade de endurecimento por aquecimento (vulcanização) e para proteger a borracha do oxigénio do ar. Produtos químicos como a amónia são adicionados antes do processamento do látex para prevenir o desenvolvimento de bactérias e agir como anticoagulante para prevenir a degradação.
Durante o processo são adicionados substâncias químicas, aceleradores (tirurans, carbamatos e benzotiaizóis) e anti-oxidantes (derivados de para fenilenodiamina e de etanol) que conferem as propriedades de resistência e durabilidade das luvas. Estes aditivos da borracha são responsáveis por algumas dermatites de contacto alérgicas.
A lubrificação de algumas luvas, é feita por adição de um pó (amido de milho) ou óleos de silicose. O pó de amido não parece ser alergénico por si próprio, no entanto a adsorção das proteínas do látex pelos seus grânulos aumenta a sua antigenicidade. Quando em suspensão no ambiente onde são usadas as luvas, podem entrar em contacto com a conjuntiva, mucosa nasal e brônquica, desencadeando reacçãoes alérgicas (Beezhol e Beck, 1992).
São normalmente as proteínas do látex de borracha natural que são susceptíveis de causar uma gama de reacções alérgicas, mais ou menos severas consoante a quantidade de exposição e a sensibilidade dos indivíduos. Os métodos de medida disponíveis actualmente não dão indicação nem identificação das proteínas que causam alergia e em que concentração. Até à existência de testes bem aceites e standardizados, a proteína total é um indicador útil da exposição considerada.
O aumento do uso de luvas provocou a proliferação da sua produção através de métodos menos recomendados e menos onerosos, aparecendo luvas com maior potencial alergénico, dada a dificuldade do processo de eliminação das proteínas. Na verdade, nem todo o tipo de látex provoca reacções alérgicas pois existem diferentes tipos de borracha sintética que, podendo ser designada de látex, não libertam as proteínas responsáveis pelas reacções alérgicas. Nos indívíduos sensíveis ao látex é essencialmente o contacto com produtos de borracha natural do látex ou exposição às proteínas do látex que desencadeia as reacções alérgicas. As designadas luvas de látex hipoalergénicas não reduzem o risco de alergia, mas as dermatites alérgicas de contacto podem ser reduzidas.
4. Exemplos de alguns produtos de látex:
· Produtos quotidianos: óculos de natação; pegas de raquetes; botijas de água quente; balões de encher; elásticos; borrachas (para apagar lápis); preservativos; luvas de uso doméstico; luvas usadas na restauração e preparação de comidas; outros objectos usados na limpeza doméstica; borracha dos biberões; chuchas; partes de borracha de brinquedos; a maioria das tintas de látex não são problemáticas, pois não contêm látex natural;
· Equipamentos em contexto hospitalar:
· Equipamentos de emergência: mangas de medição da pressão arterial; estetoscópio, luvas descartáveis; tubos de ventilação oral e nasal; tubos endotraqueais; torniquetes; tubos intravenosos; seringas; almofadas dos eléctrodos;
· EPI's: luvas de látex; máscaras cirúrgicas; protectores respiratórios; protectores faciais; aventais de borracha; óculos usados em cirurgias/autópsias. As luvas mais utilizadas pelos profissionais de saúde são de 3 categorias: Cirúrgicas esterilizadas, com ou sem pó, habitualmente de látex, existindo também em materiais sintéticos; luvas de exame, esterilizadas ou não, de látex ou PVC (usadas em exames de diagnóstico, terapêutica ou tratamento dentário); outras para protecção e uso de curta duração, normalmente de polietileno;
· Outros produtos hospitalares fornecidos: máscaras de anestesia, cárteres; tubos de escoamento de ferimentos; topos de frascos multi-doses em borracha; etc...
Muitos dos produtos apresentados existem em variantes à borracha natural do látex (borracha sintética). São as luvas o principal factor de risco para os profissionais nas diferentes valências e categorias profissionais, quer pelo contacto directo com as luvas, quer pela dispersão das proteínas do látex em aerossol, nas diversas salas e sectores onde são utilizadas.
5. Tipos de reacção ao Látex:
Há 3 tipos de manifestações clínicas que se podem verificar isolada ou simultaneamente:
· Dermatite irritante de contacto
É uma reacção inflamatória da pele, não alérgica, causada pelo contacto com borracha de látex natural ou outro agente químicos no local de trabalho. Surgem em qualquer pessoa, desde que a substância actue em concentração suficiente e tempo adequado, não necessitado de tempo de sensibilização.(Conde Salazar, 1993).Pode estar associada às frequentes lavagens com anti-sépticos e secagem incorrecta das mãos. Os sintomas mais frequentes são pele seca e avermelhada, fissuras, escamação e comichão (especialmente das mãos) .
· Dermatite de contacto alérgica ou eczema de contacto alérgico
É a patologia frequente que resulta da reacção de hipersensibilidade retardada do tipo IV a substâncias que entram em contacto com a pele e surge principalmente nas mão, por reacção aos aditivos da borracha, podendo surgir noutras superfícies do corpo em houve contacto. Estas duas ocorrências, DIC e DCA, podem ser confundidas, pois os sinais clínicos são muito semelhantes. Os sintomas da dermatite alérgica iniciam-se 24 a 48 horas após o contacto com o látex e progride para bolhas cutâneas, eritema frequentemente associado a edema. São sinais que podem persistir por semanas e espalhar-se perifericamente, além da área alcançada pelas luvas. As reacções persistem ou retornam quando o indivíduo sensibilizado entra novamente em contacto com o agente causador. Enquanto a DIC desaparece quando cessa o contacto directo com a substância irritante, a dermatite alérgica de contacto pode estender-se além da área de contacto com o agente alergénico.
· Hipersensibilidade imediata do Tipo I (a própria alergia ao látex):
É uma reacção mediada por imunoglobulina E (IgE) anti-látex e, portanto, é uma reacção sistémica de hipersensibilidade às proteínas do látex, sendo necessária uma sensibilização prévia. As reacções alérgicas do tipo imediato, ou mediadas pelo anticorpo IgE, são potencialmente a forma mais séria de reacções alérgicas ao látex. Os sintomas variam dependendo da susceptibilidade do sujeito para o antigenio e as condições de exposição.
Os sintomas cutâneos variam de urticária localizada a severa e generalizada. A exposição pode ocorrer por contacto com a pele ou membranas mucosas (nariz, boca, olhos) e pela inalação ou contacto com partículas de proteínas do látex no pó das luvas disseminadas no ambiente. Com a re-exposição, podem ocorrer sintomas como comichão, vermelhidão ou inflamação cutânea, espirros e dificuldades respiratórias com ruídos no peito, tosse, rinite, conjuntivite, bronco-espasmo, asma brônquica ou hipotensão (situações mais graves). Raramente, podem ocorrer sintomas que levem a risco de vida: esta reacção alérgica grave designa-se anafilaxia e é caracterizada por sintomas como problemas respiratórios graves, perda da pressão arterial e choque anafilático. Se não for tratada com urgência pode ser fatal.
A intensidade da reacção imediata depende do grau de sensibilidade da pessoa e da quantidade do alergeno do látex ao qual a pessoa está exposta. O maior perigo de reacções graves ocorre quando o látex entra em contacto com áreas húmidas do corpo, ou com superfícies internas durante uma cirurgia, porque mais alergeno pode ser mais rapidamente absorvido pelo corpo.
Estudos em trabalhadores de blocos operatórios identificaram 2,5% a 10,7% com alergia do tipo I ao látex de borracha natural(Turjanmaa,1987; Laiger,1992). Num estudo efectuado no hospital Garcia da Horta, entre 11 enfermeiras e auxiliares de acção médica, diagnosticaram-se 4 casos de alergia ao látex acompanhada de DCA e 2 casos de hipersensibilidade do tipoI (Caixeiro, M.I.S., 1996).
6. Grupos de risco
Dentro dos grupos de risco, indivíduos no sector da saúde têm um risco acrescido para o aparecimento de sintomas de dermatites alérgicas e desenvolvimento de alergia ao látex:
Os trabalhadores na área da Saúde, que pela quantidade de produtos derivados do látex e constituídos na sua maioria por borracha do látex natural e com proteínas (especialmente as luvas de látex), são sujeitos a exposição directa com o contacto com esses produtos, mas também com as poeiras que contêm proteínas de látex dispersas no ambiente, nos sacos de aspiração de limpeza e filtros de ventilação (e outras áreas de serviço hospitalar onde o uso e troca de luvas é regular, e onde se faz o depósito de luvas descartáveis). Empregados de manutenção e limpeza responsáveis pela limpeza e desinfecção de diversas salas de diferentes serviços (salas pré-operatórias, laboratórios de análises clínicas, salas de urgência, etc..), recolha de EPI descartável, manutenção dos aparelhos de aspiração das salas ou ainda pela modificação dos filtros de ventilação;
§ Podem-se indicar como profissionais de saúde em risco, em contexto hospitalar, médicos (cirúrgiões, clínicos, que trabalham em blocos operatórios, salas de urgência, salas de tratamento, etc..); enfermeiros; auxiliares de enfermagem; técnicos de laboratório (de análises principalmente); auxiliares de saúde; profissionais das ambulâncias, bombeiros, entre outros;
§ Pacientes com a anormalidades no tracto genito-urinário, que de acordo com alguns estudos, verifica-se em pessoas com problemas congénitos do aparelho urinário, têm um risco de cerca de 50% de desenvolvimento de alergia a este agente; pacientes que são sujeitos a vários procedimentos médicos ou cirúrgicos correm um maior risco (essencialmente pela exposição repetida às luvas de látex, que se torna mais grave no contacto com membranas e mucosas corporais, onde a absorção das proteínas é facilitada);
§ Dentistas, higienistas dentários e especialistas de odontologia também são considerados grupo de risco dado o uso de produtos de borracha de látex natural.
7. Prevalência
Indivíduos que devido à prolongada exposição ao látex desenvolvem hipersensibilidade ao látex e se tornam sensíveis, adquirem predisponência para o desenvolvimento de alergia do tipo imediato ao látex, e quando se verifica uma re-exposição, os sintomas de reacção alérgica retornam a aparecer.
· Indivíduos atópicos (pessoas com tendência hereditária para o desenvolvimento de alergias múltiplas e reacções alérgicas imediatas) têm maior predisponência para desenvolver alergia ao látex.
· A alergia ao látex também pode ser associada à reacção cruzada com alguns alimentos que podem causar alergia como a batata, banana, kiwi, tomate, abacate papaia, castanha, [Blanco et al. 1994] por serem alimentos com algumas proteínas alérgicas do látex.
· Pessoas com spina bífida (espinha bífida), um problema congénito do desenvolvimento, também estão em risco acrescido de alergia por exposição ao látex e suas proteínas.
São poucos os estudos para se conhecer a prevalência da hipersensibilidade imediata ao látex ou do TipoI na população geral. Um estudo americano (1996) encontrou uma prevalência de IgE antilátex de 6,4% em amostras de soro de 1000 doadores de sangue.
Em trabalhadores na área da saúde ou mesmo em actividades em que é exigido o uso e contacto com luvas de látex, mesmo que sejam pessoas que trabalham junto de quem usa as luvas, estudos apontam para um risco de cerca de 10%. Nos trabalhadores da área da saúde (laboratório, dentistas, enfermagem, médicos) a prevalência varia de 3% a 17%; em pacientes com espinha bífida a prevalência varia de 18% a 68%; em pacientes atópicos (asma, rinite, eczema) a prevalência é de 6,8%; em pacientes que sofreram vários procedimentos cirúrgicos a prevalência é de 6,5% e em trabalhadores da indústria da borracha a prevalência é de 11%.
A quantidade total de exposição necessária para a criação de sensibilidade ou reacção alérgica não é conhecida, mas estudos desenvolvidos indicam que com a redução da exposição às proteínas do látex, constatam-se reduções na susceptibilidade e sintomas desenvolvidos [Tarlo et al. 1994; Hunt et al. 1996].
8. Diagnóstico da alergia ao látex
Nos serviços de saúde torna-se imperativo que todos os profissionais estejam preparados para reconhecer os sintomas de alergia ao látex, após uma exposição a este agente alérgico devendo-se suspeitar sempre dos sintomas mais comuns: urticárias, irritações cutâneas (ao nível das mãos, face ou outras áreas), inflamação dos olhos, irritação nasal, respiração ofegante, tosse, ou quebras de tensão inexplicáveis.
Qualquer profissional que apresente alguns destes sintomas e se tiver estado exposto a produtos de látex, ou tenha realizado actividade em ambientes susceptíveis de apresentar proteínas de látex, devem ser avaliados por um médico, pois a exposição continuada pode agravar as reacções alérgicas.
Um diagnóstico deve-se basear no histórico clínico (outras alergias, dermatoses, etc..), observação médica e se necessário recorrer a exames e testes que detectem o anticorpos do látex (igE). Pode-se apenas recorrer ao teste na pele com uma gota de líquido com proteínas do látex. A reacção positiva é demonstrada pela comichão, irritação da pele, inchaço ou vermelhidão na zona testada. Outro instrumento de diagnóstico para a dermatite alérgica de contacto é o uso de um penso especial contendo aditivos do látex que é colocado sobre a pele, e após alguns dias verifica-se se existe reacção positiva, pelos mesmos sintomas já descritos. Os testes devem ser realizados em centros médicos com médicos experientes e familiarizados com o problema, devendo estes estarem equipados para responder a reacções severas (em caso de choque pode ser necessário uma injecção de epinefrina para tratamento imediato). Ocasionalmente os testes podem falhar na confirmação se o trabalhador tem verdadeira alergia ao látex ou sugerir alergia sem que se apresentem os sintomas clínicos, pelo que os resultados devem ser avaliados por um médico experiente.
A inexistência de um teste específico e sensível para o diagnóstico da hipersensibilidade tipoI faz com que seja necessário usar diversos métodos concomitantemente (Wrangsjo et al., 1994): testes epicutêneos, de picada, de uso e doseamento da IgE totais específicas para o latex.
9. Cuidados e recomendações após confirmação de alergia ao látex
Um profissional que se torne alérgico ao látex necessita de precauções especiais, quer para prevenção e terpêutica face a futuras exposições ocupacionais, quer durante uma necessidade de tratamento médico ou tratamento dentário, onde possam usar luvas ou outros produtos de látex.
No seu trabalho em contexto hospitalar, indivíduos com hipersensibilidade do Tipo I a única maneira de prevenir a sintomatologia é evitar utilizar ou entrar em contacto com produtos de látex de borracha natural. Oferecer um ambiente seguro aos profissionais significa disponibilizar luvas de matéria-prima que não seja de látex de borracha natural, como luvas de nitrile ou vinil. Para se reduzir a dermatite irritante deve-se sensibilizar os profissionais para evitar o uso de luvas com talco.
Luvas de látex sintético, embora mais dispendiosas, são outra opção, pois podem ser usadas em quase todas as situações em que as luvas de látex são usadas, incluíndo a cirurgia.
A escolha das luvas de látex deve ter em conta vários parâmetros: qualidade do produto final em que a produção deve obedecer a especificações de organismos independentes e testes rigorosos; segurança face aos riscos de infecção a que os profissionais de saúde estão sujeitos; alergenicidade, ou seja, luvas com baixos níveis de alergenos proteicos e químicos, ou mesmo sem látex para trabalhadores sensibilizados; adequação das luvas a usar em cada tarefa em termos de conforto e sensibilidade táctil necessária; uma boa relação qualidade-preço, já que a luva mais barata nem sempre é a mais económica, considerando custos da quebra de barreira de protecção ou sensibilização dos utilizadores aos componentes químicos.
Uma melhoria da qualidade de papel-toalha utilizado para enxugar as mãos, e da qualidade dos sabões anti-sépticos, acompanhada de uma sensibilização dos profissionais para uma secagem mais cuidada das mãos é outra recomendação para a prevenção do agravamento de reacções alérgicas mais severas.
Pode-se ainda considerar a criação de zonas de trabalho mantidas como áreas livres de látex para pacientes e profissionais afectados com a alergia; pode também ser considerada a hipótese de fornecimento de pulseiras de identificação de utentes ou profissionais de saúde com alergia ao látex e que possam sofrer de agravamento de sintomas por exposição ao agente alergénico. Por uma questão de saúde, o profissional a quem foi diagnosticada alergia ao látex, deve estar alerta para outras situações onde possa estar exposto ao látex, como é o caso de consultas de rotina em medicina clínica, cirúrgica ou em consultas de odontologia.
10. Recomendações e formas de acção preventiva
Apresentam-se em seguida várias recomendações acerca de medidas que podem ser tomadas como forma a prevenir e proteger os trabalhadores de reacções alérgicas devidas à exposição ocupacional ao látex em luvas e noutros produtos.
Alerta-se em primeiro lugar para os sintomas de alergia ao látex, especialmente em profissionais da área hospitalar, que devem ser clarificados pela severidade que podem representar: os casos mais graves podem desencadear choques e reacções alérgicas contínuas que perduram e agravam-se com a continuidade da exposição, levando ao impedimento de permanecer no trabalho que exercem.
É requerida para a prevenção deste problema a assistência de empregadores, administrativos, profissionais de saúde e profissionais da Saúde Ocupacional.
Prevê-se que a evolução da tecnologia na produção de produtos de látex, e nos métodos de quantificação da exposição a este agente alérgico conduza a algumas inovações nos programas para a adopção de práticas de trabalho e de selecção de produtos usados neste contexto, levem a melhorias nas normas preventivas e correctivas das alergias que se verificam entre estes profissionais. Estas normas são úteis na salvaguarda da saúde pública, quer dos profissionais de saúde, trabalhadores em contexto hospitalar (que pode representar rupturas de carreiras e anos de prática) e especialmente, dos doentes e utentes dos diversos serviços de saúde.
A monitorização dos produtos usados em contexto hospitalar e dos ambientes de trabalho são uma das formas de prevenção da contaminação(cutânea e inalação) dos indivíduos pelas proteínas do látex. A etiquetagem correcta dos produtos de látex com discriminação dos componentes químicos e teor de proteína alergizante é indispensável para a selecção dos produtos mais adequados a cada caso numa perspectiva terapêutica.
Assim recomenda-se:
· Usar luvas de outras borrachas para tarefas que não envolvam contacto com materiais infecciosos (tarefas de preparação de alimentos, limpeza rotineira e manutenção).
· Vigilância periódica dos profissionais em risco de desenvolver reacções alérgicas, para detecção de sintomas mais cedo e controlo ou eliminação de exposição ao látex.
· Desenvolver práticas de trabalho a seguir: ex: lavagem das mãos com sabão anti-séptico e secagem cuidada depois do uso de luvas de látex, depósito de luvas com pó restringida a cuidados especiais.
· Assinalar salas e espaços contaminados com poeira do látex, favorecer a sua manutenção e desinfecção protegendo os trabalhadores responsáveis por estas actividades, alertar para a necessidade de mudança de filtros de ventilação e sacos de aspiração mais frequentemente.
· Desenvolver programas de sensibilização (formação e informação) dos profissionais de saúde para o problema da exposição ao látex e desenvolver acções de treino com alguns equipamentos de protecção, dando recomendações de uso para diminuir o risco de exposição às poeiras de látex e contacto com produtos de látex (ex. o uso de máscaras cirúrgicas de látex).
· Consoante o grau de exposição, sensibilidade ao látex, ou sintomas de alergia e anafilaxia, os profissionais devem ter aconselhamento médico acerca dos riscos que correm se a exposição se prolongar (que produtos evitar usar), acerca da necessidade ou não de usar braceletes de identificação de alérgico ao látex, ou necessidade de preparação para casos de choque (médico pode recomendar o transporte de injecções de adrenalina em casos de reacção alérgica severa).
· Os hospitais devem fornecer os devidos equipamentos de protecção individual nos tamanhos apropriados nos locais de trabalho; devem-se ter luvas hipo-alergénicas, luvas sem pó (o que não significa que sejam luvas livres de látex ou que não sejam fabricadas de látex).
11. Recomendações para intituições de saúde e empregadores
· Fornecer aos profissionais luvas não constituídas por látex quando há pouco potencial de contacto com material infeccioso.
· Fornecer luvas de protecção aquando da manipulação de materiais infeccciosos. Se forem escolhidas luvas de látex, que sejam providenciadas luvas com reduzido grau de concentração de proteínas, livres de pó de amido de milho.
· Garantir que os profissionais de limpeza procedam à remoção das poeiras do látex das diferentes áreas de serviço: identificar áreas contaminadas com poeiras de látex para limpeza e desinfecção frequente (mudar filtros de ventiladores, limpar ductos de ventilação, aspirar carpetes, mudar sacos de aspriração frequentemente).
· Dar formação em programas de treino com materiais acerca da alergia ao látex.
· Vigilância dos profissionais para detecção de sintomas mais precocemente, e vigilância periódica dos profissionais em alto risco, de modo a tomar medidas para retirar esses profissionais dos locais susceptíveis de exposição prevenindo-se efeitos sobre a saúde a longo prazo.
· Avaliar as medidas e estratégias de prevenção sempre que houver re-incidência de reacções alérgicas ou se forem diagnosticadas alergias ao látex a algum profsssional.
12. Recomenda-se aos profissionais
· Usar luvas sem látex em tarefas em que não se manipule material infeccioso.
· Usar luvas de protecção para tarefas com material infeccioso; se forem luvas de látex, com baixo conteúdo de proteínas:
· reduzem a exposição à proteína do látex diminuíndo o risco de alergia ao látex, apesar de muitos sintomas persistirem em alguns trabalhadores;
· as designadas luvas de látex hipoalérgicas não reduzem o risco de alergia ao látex, mas as reacções aos químicos adicionados ao látex podem reduzi-las, diminuindo-se a probabilidade de dermatite alérgica de contacto.
· Usar práticas de trabalho apropriadas reduzindo a possibilidade de reacções ao látex: não usar cremes oleosos ou loções quando se usa luvas de látex (levam à degradação das luvas) a não ser que sejam cremes para reduzir problemas relacionados com o látex; lavar as mãos após usar luvas de látex com sabão e secar cuidadosamente; proceder à limpeza das áreas contaminadas com poeiras do látex.
· Tirar proveito dos programas de sensibilização de modo a familiarizar-se com os procedimentos de prevenção da alergia ao látex.
· Aprender a reconhecer os sintomas de alergia ao látex: urticárias cutâneas, comichão, irritação da pele ou mucosas, inflamação dos olhos tosse dificuldades em respirar, anafilaxia e choque.
· Se desenvolverem sintomas de alergia ao látex, os profissionais devem evitar contacto directo com luvas de látex ou outros produtos até efectuar exame médico, onde se deve clarificar as precauções a tomar: reduzir contacto com látex, que produtos evitar, se deve evitar áreas contaminadas com poeiras de látex, se deve usar bracelete de identificação como alérgico ao látex (no caso de severo agravamento da alergia).
13. Conclusão
A alergia ao látex é o principal problema apontado e é considerada uma das maiores causas de risco ocupacional para os trabalhadores da área da saúde, que pode resultar como já vimos de exposições repetidas e prolongadas aos diversos produtos com proteínas de látex. Os números das reacções alérgicas ao látex tem crescido nos últimos anos, essencialmente na indústria da saúde, onde o uso de equipamentos de protecção individual com látex é largamente vasta.
Os estudos não são suficientes para detectar a dimensão do problema da exposição ocupacional já que além dos profissionais de saúde propriamente ditos, em contexto hospitalar podemos encontrar outros trabalhadores nos serviços de saúde que sofrem de outros níveis de exposição, e ainda há aqueles que, podendo apresentar alergia ao látex, não estão alertados para os seus sintomas e medidas de precaução. Muito se poderá dizer relativamente à severidade dos efeitos da exposição ao látex entre profissionais de saúde que muitas vezes têm que abandonar a sua profissão mais cedo devido às consequências que se verificam ao nível da saúde, como podemos constatar com alguns casos auto relatados (anexo I).
Os estudos em Medicina do Trabalho em contexto hospitalar sobre a alergia ao látex podem variar muito, essencialmente devido aos diferentes níveis de exposição que se podem encontrar, mas também pelos métodos para estimar a sensibilidade ou alergia ao látex entre os profissionais dos serviços de saúde. De facto, existe uma diversidade de efeitos sobre a saúde dos profissionais de saúde, sintomas apresentados que podem assumir diferentes dimensões, consoante os níveis de exposição, que depende das diferentes categorias profissionais e actividades exercidas.
Dentro dos grupos de risco, será sobre os enfermeiros, os estagiários de medicina e os auxiliares de acção médica , que à priori se devem centrar as estratégias de prevenção; no entanto, face a dificuldades como a ausência de conhecimentos suficientes sobre os impactos desta exposição, falta de estudos e vigilância epidemiológica da saúde e dos riscos, ausência de métodos precisos de determinação da exposição, há necessidade de recorrer a uma abordagem diferente para completar estas lacunas e assim adequar e optimizar as recomendações a cada caso concreto.
A Ergonomia, pela a análise do trabalho, assume assim um papel determinante na identificação de grupos de risco e sectores mais susceptiveis de desenvolverem alergia ao látex, uma vez que pela análise ergonómica é possível identificar as causas e prevenir a manutenção ou agravamento deste problema em cada contexto específico. Além das recomendações apresentadas, a Ergonomia através da sua metodologia pode apresentar alternativas de soluções e aconselhamento para incentivar as comissões paritárias e a administração a tomarem medidas para a adaptação do ambiente e técnicas de trabalho aos trabalhadores e cada um destes ao seu trabalho. Deve-se nesta demanda integrar todos os profissionais de saúde de modo a obter uma melhoria na aplicação e interiorização das medidas preventivas, da formação e informação desses profissionais acerca dos riscos a que estão sujeitos.
É assim, que em colaboração com os serviços de saúde ocupacional, administração e profissionais de saúde que a Ergonomia pode colaborar, integrando os conhecimentos relativos aos factores de risco.
14. Bibliografia
· www.cdc.gov/niosh
· www.osha-slc.gov
· www.latexallergyresources.org
· www.smtl.co.uk
· www.latexallergylinks.tripod.com
· www.zingsolutions.com
· www.zr2.ox.ac.uk
· www.health.state.pa.us
· Uva, A.; - Reflectir a Saúde - "A saúde dos trabalhadores da saúde", Nº1 Vol. 6 pág. 9 - 16 Jan./Fev./Março 96.
· Caixeiro, M.; - Revista da Escola Nacional de Saúde Pública -"Luvas de látex - factor de risco nos profissionais de saúde", Nº 4 Vol. 15 Outubro/Dezembro 97.
· O Hospital Português; - Segurança e Saúde no trabalho hospitalar - Edições do SNS
ANEXO
Os seguintes relatos descrevem brevemente a experiência de seis trabalhadores que desenvolveram alergia ao látex após exposição ocupacional. Não são casos representativos de todos os tipos de reacções alérgicas ao látex mas são exemplos de casos mais sérios do tipo de reacções que se podem verificar:
1. Um técnico de laboratório desenvolveu sintomas de anafilaxia após usar luvas de látex ao realizar testes de sangue. Inicialmente os sintomas ocorreram apenas com o contacto com as luvas, no entanto, os sintomas começaram a verificar-se quando havia partículas de pó do látex no ar [Seaton et al. 1988].
2. Uma senhora de 33 anos fez um tratamento de anafilaxia ocupacional após seis meses de tosse periódica, falta de ar, apertos e ruídos no peito. Trabalhou 7 anos como inspectora numa agência de fornecimento de equipamento médico, onde a sua actividade consistia em insuflar ar em luvas de látex revestidas com pó de amido de milho. Os sintomas começavam 10 minutos após o início do trabalho e agravavam-se ao o longo do dia e persistiam 90 minutos após o expediente. Os sintomas desapareceram completamente nos seus 12 dias de férias e voltaram no primeiro dia de regresso ao trabalho [Tarlo et al. 1990].
3. Uma enfermeira desenvolveu urticárias em 1987, congestão nasal em 1989 e anafilaxia em 1992. Eventualmente desenvolveu sintomas respiratórios severos pela exposição ao ambiente no hospital onde trabalhava, mesmo quando não tinha contacto directo com látex. A enfermeira abandonou a sua ocupação devido aos problemas de saúde que apresentava [Tarlo et al. 1990].
4. Uma senhora de meia-idade sofreu de urticária, congestão nasal e conjuntivinte. Num ano desenvolveu anafilaxia e 2 anos mais tarde entrou em choque após um exame ginecológico de rotina em que se usaram luvas de látex. Sofreu ainda de perturbações alérgicas em ambientes com látex quando não tinha contacto directo com produtos de látex. Deixou de trabalhar [Bauer et al. 1993].
5. Um médico com histórico de alergias sazonais, nariz entupido e eczema nas mãos sofreu de severa renite, eczema nas mãos, entupimento nasal, e teve um colapso minutos após colocar um par de luvas de látex. Foi reanimado com sucesso por uma equipa de reanimação[Rosen et al. 1993].
6. Uma enfermeira dos cuidados intensivos com histórico de nariz entupido, olhos inflamados, anafilaxia, eczema e dermatite de contacto. Experimentou 4 reacções alérgicas severas ao látex. A primeira começou com anafilaxia severa de modo que necessitou de tratamento de emergência. A última e mais severa ocorreu quando colocou luvas de látex, entrou em choque e teve que ser assistida sucessivamente na sala de emergência [Rosen et al. 1993].