à reflexão.
Inicio sugerindo humildemente algumas referências bibliográficas interessantes para o tema :
1. Freitas, C.M . Avaliação de Riscos dos Transgênicos Orientada pelo Princípio da Precaução IN Valle,S & Telles,J.L. Bioética e Biorrisco. Rio de Janeiro, Interciência,2002, pág. 113 em diante.
Aqui destaco que , apesar do título , o pesquisador especialista no tema RISCO, fala do sentimento de “insegurança” não obstante todo o avanço científico que a humanidade conquista. O autor ainda citanto a bibliografia fala da “participação da sociedade nos processos decisórios” em relação à avaliação de riscos visando o controle e a prevenção da exposição de populações e indivíduos aos agentes perigosos à saúde, presentes no meio ambiente.
Mais adiante , e aqui reporto-me a algumas afirmações que rolam no nosso site quando se repele o conteúdo de determinadas mensagens, o autor referindo-se à sua tese de doutorado onde discursou sobre as dimensões sociais na análise de riscos, ao falar no capítulo do livro “A Crítica da Abordagem Tradicional de Avaliação de Riscos” produz frase lapidar (pág. 120-21) ao dizer que “ a análise riscos...baseada tanto na perspectiva utilitarista e no paradigma do ator racional, como na concepção elitista de democracia , seu desenvolvimento se deu com o objetivo subjacente de transformar determinadas escolhas sociais , políticas e econômicas em problemas “puramente” técnicos e científicos” . Mais à frente ( pág. 123) se refere à uma das críticas quando cita “ ...caber somente aos especialistas avaliar os riscos, traduzindo a perspectiva utilitarista, o paradigma do ator racional e concepção elitista de democracia , que se encontram na base das abordagens tradicionais sobre o risco”.
2. Castiel, L.D. Bioinsegurança e Ética em Saúde Coletiva IN Valle,S & Telles,J.L. Bioética e Biorrisco. Rio de Janeiro, Interciência,2002, pág. 143 em diante . Aqui destaco as palavras do Dr. Lourival ao “lembrar que a matéria jornalística pode gerar reações alarmistas desnecessárias na população” . Na pág. 157 o autor fala inclusive de questões éticas de bioinsegurança envolvendo a dita “e-saúde ( do inglês “e-health”) isto é disponibilização de conteúdos sobre temas de saúde em redes eletrônicas de informação ( internet). Vale a pena ler !!
3. Telles, J.L Bioética , Biotecnologias e Biossegurança:Desafios para o Século XXI IN Valle,S & Telles,J.L. Bioética e Biorrisco. Rio de Janeiro, Interciência,2002. Destaco aqui , na pág. 182, quando o autor afirma que “ o público, de modo geral, e , em especial, nos países do Hemisfério Norte tem maior acesso às informações , através dos meios de comunicação , demandando participação nos debates e envolvimento nos processos decisórios” . Trata-se , ao meu ver, de capítulo simplesmente empolgante.
4. Churchill,R.E & Teutsch. Principles and Practice of Public Helth Surveillance. Oxford Univ. press, 2000 .Capítulos 1 e 8 .
5. Buehler, J.W. Surveillance IN Rothmaan, K.J. & Greenland,S. Modern Epidemiology. Lippincott Williams & Wilkins, 2a.ed. pág. 435 – 57
6. Waldman , E.A. Usos da Vigilância e da Monitorização em Saúde Pública .Informe Epidem. do SUS, VII(3),jul/set, 1998. Aqui destaco a brilhante a análise que o autor faz dos sistemas de vigilância em saúde onde aponta as suas fragilidades em nosso países . Na pág. 23 fala da importância da ampla disseminação da informação. Antes que me critiquem é claro que está referindo-se à informação analisada e não a da imprensa é claro !!!
Há outras referências mas vamos logo ao tema que estou propondo – me a falar.
Vamos tentar dividir a abordagem por três formas para que eu possa atingir meus objetivos :
a) Abordagem científica da notícia veiculada pela imprensa;
b) Abordagem da Autoridade Sanitária, e
c) Abordagem no site Risco Biológico.
Em relação ao primeiro item (abordagem científica),se for o desejo dos companheiros , eu paro de enviar, entretanto eu quero ter a certeza de que todos compreendem a intenção de manter rodando tais mensagens .
Não há nenhuma dúvida, nem nunca houve de minha parte , de que notícias veiculadas pela imprensa são desprovidas de caráter científico , porém, a sua disseminação promove a discussão, reflexões, além do que serve , ao meu ver, de alerta para profissionais de saúde e porque não para a população ???
Célia será que sou tão primário assim ??? Por favor companheiros ! Justifica-se tantas perguntas dirigidas a mim como se eu tivesse a intenção de transformar a matéria numa publicação científica ??? Eu , particularmente, sei que ao ter participação tão intensa no site RB, provocando discussões, etc., estou exposto à crítica e meu limiar de sensibilidade beira a razão entretanto companheira quero ter a certeza de que ao afirmar “...nos fazer perder tempo com matérias inconsistentes e inoportunas. Necessitamos de matéria séria e construtiva...” não teve a intenção de me caracterizar como inoportuno, um sujeito que não é sério e que não tem intenções construtivistas. Aliás esta última característica, infelizmente não muito bem compreendida por muitos , é a maior que tenho e pertenço a uma linha pedagógica construtivista que se baseia na acumulação de conhecimentos a partir da troca de experiências pois todos , em maior ou menor grau, tem uma experiência , uma opinião , enfim, a dar....Provoco arrepios(risos) ao dizer que a comunidade organizada seria a melhor gestora de um estabelecimento assistencial ...Mais ainda ao perguntar porque a comunidade não acadêmica não pode participar da gestão da universidade pública ? Porque ela tem que ser afastada dos processos decisórios ? Porque não pode participar da eleição do “magnífico senhor reitor” ??? Só porque é o povo???
Vejam, por fim, esses casos veiculados pela imprensa envolvendo D. de Chagas e a tênia do peixe. É importante lembrar que envio as mensagens e não emito opinião logo de cara .Esses dois casos p.ex., eu teria críticas ferrenhas à Vigilância Sanitária , notadamente as municipais, pois tratam-se de casos típicos envolvendo Educação Sanitária . Um diz respeito à cana-de-açúcar que não é lavada antes de ir para a moenda e aí vai tudo junto, o que se vê e o que não se vê ( e o caldo é tão bom ...) . A outra diz respeito à carne crua do peixe e que não acompanhou o crescimento da culinária asiática no Brasil . Todo mundo sabe , aprende-se até no ensino fundamental, os males da carne crua de porco e de boi mas se esquecem de ensinar tudo sobre a tênia do peixe. Há a ainda a tênia do rato ( Himenolepis nana ) , que envolve as crianças e os cuidados básicos de higiene. Enfim , independente da verdade ou não das matérias jornalísticas o comércio de alimentos, mais forte entre os populares, não têm como característica a observação dos Princípios Básicos de Higiene , tal qual, p.ex., nos nossos hospitais onde lutamos para que a lavagem das mãos seja uma rotina banal.
No caso da tênia do peixe minha crítica vai mais fundo ainda porque independente da importância da notícia trata-se de um “escândalo” para vender jornal na medida em que as outras tênias afetam muito mais a população brasileira e também porque é importante lembrar que “pobre não freqüenta restaurante japonês” , mal come peixe quanto mais salmão !!! Até agora não vi nenhuma Autoridade Sanitária vir a público e explicar que “tênias do pescado” se previne como as outras e que trata-se de algo que o povão já conhece e sabe como prevenir....Que quem come em churrascaria também está sob risco de contrair vermes chatos ...Que quem não ferve o leite ...E blá-blá-blá-blá-blá.....O que sai é “ Vigilância vai regulamentar isso...Vigilância vai regulamentar aquilo...” Porque não regulamentou antes ????
Aliás há relatos de ciclos erráticos de Dioctophyme renale em humanos. Trata-se de verme redondo que parasita o rim alimentando-se de todo o parênquima restando apenas a cápsula . Ataca canídeos e um dos hospedeiros definitivos é o urso. Os ovos saem pela urina , são ingeridos por caramujos que são devorados por peixes ficando a forma infectante do verme incistada na carne que se for ingerida crua ..... Felizmente o homem não é o hospedeiro definitivo.
O resultado, e aqui exponho-me à crítica mais uma vez, é o que se espera da reportagem : caiu o consumo de carne crua de peixe...as pessoas estão com medo de beber caldo-de-cana ....CLARO !!!!! A autoridade sanitária não cumpriu o seu papel de promotora e protetora da saúde coletiva pois está preocupada somente em criar Normas, sem Educação Sanitária paralela, e em “aplicar a lei” .
Está no jornal de hoje que uma “vítima do surto (?!) de difilobotríase” , freqüentador assíduo de restaurantes japoneses, já “tratou” sem conseguir sucesso. Aí reclama das autoridades, blá-blá-blá, e tem até razão pois o poder público não lhe esclareceu dos riscos !!! Pior ninguém esclarece a ele, ou o jornal entrevista um especialista , para dizer que o tratamento é muito difícil mesmo e que sem a eliminação do escólex a tênia cresce de novo....
Ou seja , companheiros: a imprensa hoje e a população são os melhores fiscais da Saúde Pública....Infelizmente ...O melhor monitoramento hoje quem faz é Fantástico.....
Em relação ao item “b” (Abordagem da Autoridade Sanitária) a situação muda de figura. Um Sistema de Notificações de Agravos à Saúde por “RUMORES” já é aceito e não há nada demais em discuti-los no campo INFORMAL. Já no campo da Vigilância em Saúde como instrumento de Saúde Pública , que tem uma base jurídico-legal muito bem definida , que se inicia na Constituição Federal, passa pela Lei Orgânica da Saúde , pelas Normas Operacionais do SUS, criação da ANVISA e do Sistema Nacional de Vigilância, a recente Portaria Ministerial 1.172 de 15/06/2004 que regulamenta a NOB SUS/96, bem como Código de Defesa do Consumidor, etc, o que a Autoridade Sanitária deve fazer é mandar investigar todos os casos notificados não importando a sua origem e forma , inclusive a “denúncia anônima” hoje importante instrumento da cidadania. Saibam que muitas denúncias na área de saúde são encaminhas para as Sec. de Saúde via disque-denúncia.
Lembrando que agravos à saúde veiculados pela imprensa que já foram tidos como “absurdos” e ao serem investigados descobriu-se que se tratavam de verdadeiros crimes, a nossa intenção não é nada mais do que promover a discussão e desencadear medidas de observação sobre o produto , eventualmente envolvido . É mais s fácil eu dizer aos companheiros quantas foram as matérias veiculadas pela imprensa que não tinham fundamento pois foram muito poucas. Quase todos os casos graves que investigamos a partir do jornal eram verdadeiros e foram vários, infelizmente quase sempre envolvendo óbitos.
Não cabe mais hoje aos profissionais de saúde, sejam eles do Sistema de Vigilância e Monitoramento de Agravos à Saúde sejam da assistência, ignorar qualquer forma de informação e com base nos Princípios da Precaução tomar providências no âmbito de suas esferas de competência. Já não se aceita mais a frase “... não recebemos nenhuma comunicação oficial” . Na assistência uma das funções dos responsáveis técnicos é manterem-se permanentemente atualizados e diante de notícias desse tipo buscarem imediatamente a informação oficial e/ou acadêmica sobre o produto e/ou serviço envolvido bem como de imediato suspender o seu uso temporariamente até ter uma posição definida sobre a situação de modo a prevenir o surgimento de novos casos.
É isso que nós esperamos , fora , como já disse, que essa atitude do profissional tem toda uma ampla proteção legal.
À Autoridade Sanitária, como já disse, cabe mandar investigar imediatamente o conteúdo da matéria jornalística determinando que uma equipe multidisciplinar vá ao estabelecimento citado para os procedimentos de rotina colhendo inclusive amostras, entrevistando profissionais e possíveis vítimas ou seus parentes, analisando prontuários,fazendo interdições parciais ou totais se for o caso, etc , etc...
Quando sai no jornal que “mulheres em uso de anticoncepcional “tal” engravidaram” não devemos questionar se é verdadeira, sensacionalista ou não, mas sim investigar de um lado e de outro prescritores devem suspender a sua indicação bem como a população deve ser orientada a não usá-lo temporariamente até que se tenha o resultado da análise oficial.
Desculpem-me companheiros mas já foi o tempo da ditadura militar, quando entrei para a Vigilância Epidemiológica, e meus chefes eram todos militares apesar de médicos , onde determinados Indicadores de Resultado , como p.ex. os da raiva , não podiam ser divulgados por questões de segurança nacional e para “não alarmar a população” ....Isso numa época em que o Rio tinha uma maiores concentrações de raiva urbana do mundo !!! Hoje meu foco de ação é a morbi-mortalidade perinatal e materna onde , não obstante termos a maior rede assistencial do país , prevalecem altas taxas com municípios equivalendo-se às do continente africano !!! Porque a imprensa não pode divulgar esta vergonha ??? Porque as mulheres não podem ser orientadas a procurar um serviço seguro e a aprenderem a denunciar os maus-tratos que sofrem quando internadas para parir ? Mulheres humildes denunciaram que seus bebês morreram como “peixes-fora-d’água” após receberem injeção numa emergência . Assim saiu no jornal. Nossa equipe constatou que realmente as caixas de ampolas de cortisol continham misturadas outras de succinil-colina ....
Passando ao item “C” (Abordagem no site Risco Biológico) sou obrigado a lembrar aos listeiros mais novos de que freqüento o site RB há muito tempo e que a minha intenção é, não mais não menos , estimular a discussão e levar à reflexão a partir da troca de idéias , experiências , visando a acumulação de conhecimento acerca do Monitoramento e a Prevenção de Agravos à Saúde Humana no ambiente hospitalar .
Assim como fazemos aqui há outros sites onde a notícia rola solta e que convido todos a conhecer como, p.ex, a Lista de Adversidades em Saúde – LISAS (http://www.lisas.org.br), como o Lab Consumo & Saúde (consanvs@listas.nce.ufrj.br) ambas da UFRJ, isto é , do meio acadêmico e que todos já viram nas minhas mensagens.
Vocês não podem negar, principalmente a Célia a riqueza do conteúdo das mensagens sobre o tema Micobactérias ...Vejam que foram surgindo informações em cascata ....Não é possível que não reconheçam o alto valor desses debates !!!!
Vejam, por fim, esses casos veiculados pela imprensa envolvendo D. de Chagas e a tênia do peixe ....Do primeiro, que enviei ao RB , surgiram outras mensagens , uma atrás da outra, relatos de experiências e , pior, vejam o alto valor dos freqüentadores do site que ficam anônimos só olhando as mensagens e que de vez em quando participam com informações da academia !!! Isso só faz lembrar que devemos ter cuidado com o que escrevemos pois há muita gente lendo...(risos)
Quando entrei para o site foi com intenção mesmo de participar de um processo educacional dentro do modelo construtivista a partir de uma vivência de quase 15 anos na Vigilância Sanitária. O RB para mim, sem que seus fundadores tivessem dado autorização , é hoje o meu hobby, pois nele possa fazer aquilo que mais gosto que é discutir Avaliação da Qualidade em Serviços de Saúde e a Vigilância de Agravos à Saúde Humana e isso sem o estresse de ser o poder repressor que é obrigado a impor medidas próprias da polícia sanitária e que sempre me deixaram meio que perplexo na medida em que lidava com profissionais de nível superior, enfim.A Epidemiologia é a ferramenta da Vigilância em Saúde e os clínicos aos poucos vão percebendo a sua importância.
Portanto , companheiros, quando envio para o site RB uma notícia de jornal como esta “Geradores do hospital em Cuiabá não funcionaram. Internos podem ter morrido por asfixia, já que respiravam por aparelhos”, além das intenções que já expus, o que espero é que cada um de nós , no seu hospital, procure saber como está o sistema de energia elétrica de emergência , se tem contrato de manutenção em vigor, etc, e não questionar o valor da matéria strictu senso. Podemos, e devemos, questionar o seu conteúdo, as inverdades , a ausência de caráter científico, etc, etc...mas negar a possibilidade da existência do fato ou que alegar que trata-se de algo que pode “gerar reações alarmistas na população “ é outra história ..O que desejo é que todo cidadão ou seu parente só aceite se internar num hospital que , p.ex., tenha gerador funcionando adequadamente porque para mim o que vale é a vida humana e não as instituições ou as corporações profissionais.
Para finalizar e a propósito, Célia, já que você fez o comentário sobre “sujidade”, esta é a minha pesquisa para poder de alguma forma dar a minha humilde contribuição:
SUJEIRA( sf) : imundície , porcaria , sujidade ( Aurélio)
SUJIDADE(sf): sujeira ( Aurélio)
RESÍDUO(sm): o que resta de qualquer substância , resto ( Aurélio)
LIXO: é todo e qualquer tipo de resíduo sólido produzido e descartado pela atividade humana doméstica, social e industrial (FEAM/MG, 1995 APUD Souza, P.R.R..Resíduos Sólidos de Serviços de Saúde IN Valle,S & Telles,J.L. Bioética e Biorrisco. Rio de Janeiro, Interciência,2002, pág. 391
Recomendando mais uma boa leitura a todos , “Microfísica do Poder”, de Michel Focault, bem como uma dissecada no conceito de “biopoder vigilante”, envio a todos um gigantesco abraço e cordiais saudações.
Paulo Roberto Rebello – médico
CECIH – CVE/SES-RJ
VISA-EAD/ENSP-FIOCRUZ