febre amarela urbana ocorreu no Acre, em 1942.
O risco atual se deve à proliferação ao Aedes aegypti nas zonas urbanas, que também pode ser um vetor da febre amarela. Em Goiás, já foram registrados três casos de febre amarela em macacos. Mas 80 animais já morreram nas últimas semanas em 30 municípios do Estado, o que pôs as autoridades sanitárias em alerta. "Vamos deflagrar uma guerra contra a febre amarela. E a participação da sociedade é fundamental", conclama o secretário estadual de Saúde, Cairo de Freitas. A campanha de vacinação em massa contra a doença já começou. "E a população atendeu ao chamanento", conta o secretário. Segundo ele, não vai faltar vacina. Além da produção potencial de 1,5 milhão de doses do Ministério da Saúde, os demais Estados estão mandando seus estoques de vacina para Goiás. A perspectiva de Cairo de Freitas é que a doença se mantenha sob controle, restrigindo-se à sua forma silvestre. "Nossa luta é para fazer com que não haja nem um só caso de febre amarela urbana. Seria muito ruim para Goiás entrar na literatura médica mundial como a região que reurbanizou a febre amarela no país", explica. Cairo de Freitas sabe o que isso representa. Há cerca de um século, quando a febre amarela urbana atacava cidades como o Rio de Janeiro, o Brasil tinha graves perdas econômicas, com os navios sendo obrigados a ficar de quarentena nos portos e os turistas fugindo do país. Na época, não havia a vacina, que só foi produzida depois que Fundação Rockefeller, dos Estados Unidos, e o Instituto Pasteur, da França, conseguiram, em 1927, isolar o vírus da febre amarela na Nigéria e em Dacar, respectivamente, identificando o mosquito Aedes aegypti como vetor da doença. A febre amarela silvestre ocorre de forma endêmica nas florestas tropicais, no cerrado da América do Sul e nas savanas da África. O arbovírus do gênero Flavivírus, responsável pela doença, tem nos macacos e no mosquito do gênero Haemagogus seus principais hospedeiros. A febre amarela, assim como a dengue, pode levar à morte. Daí a guerra que as autoridades sanitárias estão travando contra a doença. Em visita ao Jornal Opção, na quarta-feira, 26, o secretário Cairo de Freitas explicou como será travada essa guerra. Além da meta de vacinar cerca de 800 mil pessoas, a Secretaria de Saúde vai intensificar o combate ao mosquito da dengue, atacando seus criadouros atraves de intensivo dos agentes de saúde junto à população. "Esse trabalho já vinha sendo feito, tanto que reduzimos a infestação do mosquito em 54 por cento no Estado", contabiliza Cairo de Freitas. Nessa entrevista, ela também fala dos problemas do SUS e adianta que o Hospital de Urgências de Aparecida de Goiânia deve entrar em funcionamento em janeiro.
Euler de França Belém — Qual a razão dessa volta da febre amarela?
Temos duas espécies de febre amarela: a febre amarela silvestre, que sempre existiu, e a febre amarela urbana, que já não ocorre desde 1942. Goiás faz parte da região endêmica de febre amarela silvestre no país, juntamente com o resto da Região Centro-Oeste e a Região Norte. O vírus da febre amarela silvestre circula nessas regiões, principalmente através do hospedeiro, que é macaco. Ela é transmitida pelo mosquito Haemagogus. Pessoas que moram em zonas rurais, em áreas de florestas, estão sujeitas à febre amarela silvestre. O que não existe no país desde 1942 é a febre amarela urbana. A maior preocupação nossa é a reurbanização da febre amarela. E com um outro vetor: o Aedes aegypti, o mosquito da dengue.
Com a proliferação que temos hoje do Aedes aegypti, com criatórios muito grandes em certas regiões de determinadas cidades, a reurbanização da febre amarela se tornou possível. O homem invadiu o habitat natural dos macacos, que são as florestas, e fez surgir essa possibilidade de reurbanização da doença, além do ressurgimento de outras doenças. Por que não existe mais febre amarela no Sul e no Sudeste? Porque, lá, as matas acabaram. Aqui, ainda temos uma zona de expansão, em que ainda estamos invadindo zona rural, onde habitam macacos que estão em contato permanente com o vírus da febre amarela.
Euler de França Belém — Já há quantos casos de mortes por febre amarela?
Temos cinco casos de mortes por febre amarela silvestre. A última delas foi em Jataí. Mas, como se trata de febre amarela silvestre, já fizemos o bloqueio na região, o que resolve o problema. Nossa preocupação é com a possível volta da febre amarela urbana. O que é um paradoxo: por um lado, tememos a volta da febre amarela, uma doença de país subdesenvolvido, mas, por outro, estamos às voltas com doenças da modernidade, como os acidentes cardiovasculares, câncer e traumatismos provocados por acidentes de trânsito. É preciso montar duas estruturas diferenciadas para acudir essas duas realidades muito distintas.
José Maria e Silva — Quantos macacos já morreram com febre amarela, inclusive em Aparecida de Goiânia?
Até hoje, já temos 80 macacos mortos em 30 municípios. Desse total, em três casos já temos confirmado o vírus da febre amarela: um em Goiânia e dois em Aparecida. Mas, em muitos desses casos, já não é possível fazer o exame, porque, quando o macaco foi encontrado, já estava totalmente putrefato. Pode ser, então, que existam mais de três casos entre esses 80, porque o vírus da febre amarela é endêmico entre os macacos na floresta. Isso já era esperado. O que não é esperado é encontrar um macaco praticamente no meio urbano com o vírus, como aconteceu no Jardim Madri, ainda por cima numa região com grande incidência do mosquito da dengue. A sorte — se é que se pode falar em sorte nesses casos — é que o mosquito da dengue não é muito simiofílico, isto é, ele não é muito atraído por macacos. Ele pica o macaco acidentalmente. Mas, havendo criadouros com mais de 5 por cento de infestação de Aedes aegypti, o risco aumenta. Por isso, uma das ações fundamentais no combate à febre amarela é reduzir os criatórios do mosquito da dengue para menos de 5 por cento. A partir do dia 2 de janeiro vamos desencadear uma grande ação nos municípios no sentido de combater o Aedes aegypit, que é o mesmo vetor da febre amarela urbana.
José Maria e Silva — Que medidas foram tomadas pela Secretaria da Saúde após ser constatada a febre amarela nos macacos?
Até então, estávamos apenas intensificando as medidas de rotina. Por exemplo, se tínhamos um caso numa determinada região, como o Jardim Madri, fazíamos o bloqueio naquela região. Como aumentou muito a suspeita de febre amarela nos macacos, decidimos fazer uma ação mais profunda, mais intensa, em todo o Estado, nos municípios com ou sem epizootia, que são os casos de epidemia entre os macacos. Procuramos o Ministério da Saúde e decidimos vacinar cerca de 15 por cento da população, que, de acordo com as estimativas, não estão vacinadas contra febre amarela. Em alguns municípios, o índice é maior. Em Aparecida, por exemplo, cerca de 30 por cento da população não está vacinada. Estimamos que serão vacinadas cerca de 800 mil pessoas em todo o Estado. E a procura tem sido muito grande. O Ministério da Saúde dispõe de 1 milhão e meio de vacinas. E já convocou todos os Estados a mandarem para Goiás suas doses de vacina contra a febre amarela. A partir do dia 2, vai ser uma operação de guerra. Mas a procura pela vacina já tem sido muito grande.
Euler de França Belém — A febre amarela, em 85 por cento dos casos, não é letal. E, entre os 15 por cento de casos que podem ser letais, nem todos levam a morte. Como é, exatamente, o perfil da febre amarela?
A febre amarela tem desde casos leves, que a pessoa nem sabe que teve febre amarela, até casos que podem levar à morte. Na forma leve, a sintomatologia é quase a mesma da dengue, com mialgia, vômitos, levando a pessoa a pensar que está apenas com uma gripe. Por isso, é difícil saber se a febre amarela já se urbanizou novamente ou não. Eu mesmo questionei, no Ministério da Saúde, se esse não é o momento adequado de fazermos a revisão do conceito de febre amarela silvestre e urbana. Hoje, devido a essa invasão das cidades nas áreas florestais, a diferença praticamente se restringe ao tipo de hospedeiro, se o Aedes se o Haemagogus.
Euler de França Belém — O outro mosquito também é parecido com o Aedes?
São parecidos. Só que o Haemagogus, como o próprio nome diz, tem tropismo por sangue.
Euler de França Belém — Diante disso, o senhor não acha grave a denúncia do Sindsaúde de que a maioria dos agentes de saúde não tem uniforme nem crachá e, portanto, não consegue entrar nas casas para combater o mosquito da dengue?
Esse é um fator que dificulta. Os agentes devem estar bem paramentados e todos eles devem estar vacinados, assim como a polícia, a imprensa e outras pessoas que, porventura, possam vir a trabalhar numa área que tenha tido casos de febre amarela.
Euler de França Belém — Segundo o Sindsaúde, os agentes não dispõem de material para fazer recolher as larvas e fazer sua contagem. Elas são detectadas e, logo depois, jogadas fora. Com isso, o Sindsaude diz que as estatísticas estão subestimadas.
Os exames estão sendo feitos adequadamente. As larvas estão sendo recolhidos. Até agora, não recebemos denúncia a respeito de nenhum município que não esteja recolhendo as larvas. Isso pode acontecer isoladamente. Mas não temos conhecimento disso.
Euler de França Belém — Uma pessoa que contrai febre amarela fica definitivamente imunizada contra a doença?
Fica. E a imunização é individual, ou seja, a pessoa só é imunizada com a vacina ou com a própria doença, não é como a poliomielite, em que, com a vacinação, se forma uma barreira. Por outro lado, a pessoa só transmite febre amarela para o mosquito, que vai contaminar outras pessoas, dentro do período de transmissão, de três ou quatro dias. Por isso, se tivermos um índice de infestação baixo, o risco de se pegar febre amarela cai muito, porque o mosquito tem que picar a pessoa só naquele dia em que a pessoa está no período de transmissão.
José Maria e Silva — Qual o índice médio de infestação hoje no Estado e em quais municípios ele é maior?
No Brasil todo, aumentou em cerca de 50 por cento os casos de dengue. Até este mês de dezembro, Goiás diminuiu em 54 por cento os casos de dengue. Os municípios que tinham o maior número de casos de dengue trabalharam de forma intensiva para controlar, ainda na época da seca, os níveis de transmissão de vetores. O trabalho está muito eficiente. Mas não se pode cruzar os braços, porque a chuva demorou a chegar e, provavelmente, a partir de agora, os casos vão aumentar, em função da eclosão dos ovos. Em Aparecida, por exemplo, temos bairros que estão com índices de infestação acima de 5 por cento. Nossa meta é reduzir esses índices de infestação. O município faz a parte dele, mas a parte individual na prevenção também é muito grande. Cada pessoa tem que cuidar para que sua casa não tenha criatórios de mosquito. Tampar caixas-d'água, por exemplo, é fundamental, porque uma caixa-d'água é um criatório muito grande.
José Maria e Silva — Levando em conta a gravidade da febre amarela e da própria dengue, a campanha de combate ao mosquito não deveria ser mais dura, prevendo até punição para quem não colaborar com os agentes de saúde, desde que devidamente identificados, obviamente?
Entrar em imóveis fechados, por meio de ação judicial, já foi um problema muito sério, que funcionou em alguns municípios, mas em outros não, gerando uma grande polêmica. Então, é difícil adotar medidas diferentes da conscientização das pessoas. E esse é um trabalho eminentemente municipal. O que o Estado e a União podem fazer é criar as condições necessárias para esse trabalho, mas ele tem de ser desenvolvido pelos municípios, casa a casa, morador a morador.
Os municípios que têm bons programas de saúde da família e dispõem de agentes de saúde, cobrindo toda a região, estão sendo muito bem-sucedidos no trabalho de combate ao mosquito, com índices muito baixos de infestação. E, nos municípios menores, esse trabalho é mais fácil. Por isso, tivemos mais problema de infestação em Goiânia e Aparecida.
Euler de França Belém — Se depender da consciência individual, a guerra está perdida. O Setor Sul, por exemplo, é um grande criadouro de mosquitos.
Daí a importância da ação individual. O agente tem de ter o contato direto com as famílias.
Quando isso ocorre, ele consegue realizar bem o seu trabalho. Em prédios, construções ou imóveis vazios, onde esse contato é mais difícil, o índice de infestação é maior. O mosquito não respeita fronteiras nem classe social. Infelizmente, muitas pessoas das classes A e B acham que a dengue, por ser uma doença historicamente dos países subdesenvolvidos, não vai afetá-las. E estão enganadas, obviamente. Mas isso não ocorre só em relação à dengue, mas também em relação a doenças como diabetes, por exemplo.
Muitas vezes a pessoa sabe que tem a doença, mas não se cuida adequadamente, achando que seu caso não vai se agravar. Da mesma forma a pessoa que sabe que não pode fumar, mas continua fumando. Acho que esse é um problema que extrapola o âmbito da medicina. Outras áreas do conhecimento devem estudar essas dificuldades para se fazer um trabalho preventivo.
José Maria e Silva — Levando em conta que os sintomas da febre amarela se confundem com os de outras doenças, ela não corre o risco de voltar mais forte nos próximos anos, concretizando sua reurbanização?
Estamos orientando as equipes médicas a fazer uma investigação rigorosa de todo caso que apresentar sintomas parecidos com os da febre amarela. Se a pessoa não esteve em zona endêmica, não esteve na roça, em regiões de matas e está vacinada contra a febre amarela, aquele caso já está descartado. Então, é possível ir afunilando. Por isso, não creio que a febre amarela vá se agravar nos próximos anos. Ela ataca individualmente, não é coletivamente. Daí, é difícil haver um surto. Nossa preocupação, fundamental, é evitar que ocorra um único caso de febre amarela no Estado. Não podemos ser descritos pela literatura médica mundial como a região em que a febre amarela urbana reapareceu no país depois de 65 anos. Isso nos envergonharia muito. Por isso, estamos fazendo todo esforço para que isso não aconteça.
Euler de França Belém — Um sanitarista me disse que, se a secretaria agir rapidamente, daqui a três meses ninguém mais vai discutir febre amarela, voltando a discutir a dengue. Isso procede?
É verdade. Em 2000, tivemos um surto de febre amarela silvestre. Na época, tomamos todas as providências necessárias, vacinando as pessoas; passado o período de chuva, o perigo de contaminação praticamente desapareceu. Com as medidas de controle de vetores e educação em saúde que vamos deslanchar no início de janeiro, creio que vamos ter um controle efetivo sobre a dengue e a febre amarela em 2008, com redução dos índices de contaminação. Isso é muito importante, porque uma nova cepa do vírus da dengue, o tipo 4, já está rondando o mundo. E ele é fatal. Por isso, se torna mais importante ainda reduzir o índice de infestação do mosquito.
Euler de França Belém — Explique melhor esse vírus tipo 4.
As cepas do vírus da dengue são classificadas do tipo 1 ao tipo 4. A dengue hemorrágica é o tipo 3. O tipo 4 é ainda mais agressivo. Os vírus mudam de comportamento. Exemplo disso é o vírus da Aids. Antes, o vírus da Aids incidia nas grandes regiões metropolitanas; hoje, está se interiorizando. A proporção de casos entre homens e mulheres era de 12 para um; hoje, é quase de um para um. Antes o vírus não atingia pessoas idosas, hoje já está atingindo.
Euler de França Belém — Os pesquisadores Terezinha Marta Castiñeiras Fernando Martins disseram que, em todos os casos com suspeita de febre amarela, "é importante que seja sempre investigada a possibilidade de malária". Segundo eles, "a comprovação do diagnóstico de malária, entretanto, não afasta a possibilidade de febre amarela, uma vez que as áreas de transmissão em geral são as mesmas. Pelos mesmos motivos, a confirmação do diagnóstico de febre amarela não exclui a possibilidade de malaria". Por que a malária?
Esse procedimento é especifico de regiões onde ocorre malária, como a Região Norte. Em Goiás, a malária não entra como diagnóstico diferencial, salvo se a pessoa for oriunda das regiões onde há incidência de malária.
José Maria e Silva — Existe a possibilidade de se conseguir uma vacina para a dengue?
Os grandes complexos industriais estão trabalhando para conseguir uma vacina para a dengue, uma vez que ela atinge um grande número de pessoas no mundo. Mas ainda não se conseguiu nada neste sentido.
O secretário estadual de Saúde, Cairo de Freitas, é entrevistado pelos jornalistas Euler de França Belém e José Maria e Silva, no Jornal Opção
Euler de França Belém — Qual é o tratamento para a pessoa que está com febre amarela?
Não há um tratamento específico para a febre amarela. O que se faz é o tratamento dos sintomas, como febre, vômito etc. Há casos que necessitam de internação, porque há um percentual que mata. Não tanto pela doença em si, mas pela falta de tratamento. E é fundamental o isolamento da pessoa, porque ela é um potencial transmissor da febre amarela. Se for picada por um mosquito, ficará contaminada e vai contaminar outras pessoas. O HDT, que é um hospital de referência, está preparado para tratar de qualquer caso de febre amarela que, porventura, venhamos a ter.
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