uma companhia farmacêutica, com uma proposta.
A dita companhia propôs que ela assinasse um artigo de revisão (tipo de estudo mais importante nas ciências médicas, pois reúne resultados de diversas pesquisas paralelas e faz um balanço de tudo que foi investigado sobre o tema).
O assunto era a interação de ervas com warfarin, um famoso anticoagulante com uma longa história nos EUA, único de uso oral aprovado pela FDA (agência que regula fármacos no país).
Interesse
A proposta, feita por e-mail, dizia explicitamente que o estudo havia sido financiado por uma certa companhia farmacêutica, que não tinha nenhuma droga no mercado concorrente do warfarin, nem nenhum produto derivado de ervas. Intrigada, Fugh-Berman pediu mais informações.
Poucos meses depois, em 24 de agosto, ela voltou a ser contatada. A empresa de comunicação havia enviado um rascunho do estudo, já assinado por ela, para que ela fizesse as modificações que achasse necessárias, de preferência até o dia 1º de setembro.
Sobre o interesse da farmacêutica pelo estudo, a empresa de comunicação disse a Fugh-Berman: "Embora não haja promoção de nenhuma droga nesse estudo, a companhia quer preparar o palco para novos anticoagulantes que não estão sujeitos às numerosas limitações do warfarin".
A pesquisadora da Georgetown não aceitou ceder seu nome para a publicação da pesquisa. E a história teria provavelmente morrido aí, não fosse uma coincidência.
Outro cientista mais permissivo foi encontrado pela empresa para assinar o estudo. O trabalho, então, foi submetido para publicação no "Journal of General Internal Medicine" ( www.blackwellpublishing.com/journal.asp?ref=0884-8734), revista científica americana com "peer-review", sistema em que outros cientistas, independentes, são chamados a avaliar o conteúdo dos trabalhos antes da publicação.
"Por coincidência, eu fui chamada a avaliar esse artigo, uma versão revisada, mas reconhecível, do manuscrito que antes havia sido enviado a mim", escreve Fugh-Berman, num artigo que saiu ontem nessa mesma revista. "Ao saber de suas estranhas origens, os editores do "Journal" rejeitaram o trabalho e incentivaram uma discussão internacional sobre "ghostwriting" por empresas de comunicação entre os membros da Associação Mundial de Editores Médicos, alertando-os para o fato de que estudos submetidos podem não reconhecer apropriadamente financiamento de corporações e/ou co-autoria."
No artigo publicado, os editores do "Journal of General Internal Medicine" alteraram o manuscrito de Fugh-Berman, com autorização dela, para omitir os nomes das companhias envolvidas no caso, supostamente porque seu objetivo não era fazer uma denúncia mas sim abrir um debate.
Nomes aos bois
Em entrevista à Folha, a pesquisadora de Georgetown revelou os nomes. A empresa de comunicação médica era a Mx Communications, e a companhia farmacêutica era a AstraZeneca. Ambas têm sede no Reino Unido.
Fugh-Berman considera o problema sério. Ao encerrar seu artigo, diz: "Duvido que eu seja convidada novamente para ser uma autora de mentirinha, mas certamente há outros médicos que estariam dispostos a propagandear essas enganações".
No fim, o novo anticoagulante da AstraZeneca ganhou aprovação para alguns casos na França, mas foi vetado para uso nos EUA.
Embora tenha ocultado os protagonistas do caso, o "Journal of General Internal Medicine" entrou de sola na questão. Afinal de contas, a estratégia usada pelas farmacêuticas solapa a confiabilidade que se pode ter em resultados, mesmo quando publicados por revistas com "peer-review".
Usando um pesquisador "imparcial e independente" como autor, as empresas evitam a obrigatoriedade imposta por muitas publicações científicas de declarar interesses financeiros ligados à pesquisa. Periódicos que se consideram sérios não podem gostar disso. O "Journal of General Internal Medicine" não gostou. "Nesta edição, Fugh-Berman descreve um caso grosseiro de comportamento antiético por um autor, um fabricante farmacêutico e uma companhia de educação médica", afirma o editorial da revista.
Em resposta ao caso, o "JGIM" decidiu enrijecer sua política editorial, especificando que qualquer pessoa ou companhia que teve influência no texto ou no conteúdo de um artigo deve ser identificada. E a Associação Mundial de Editores Médicos ampliou seu foco para cobrar não só a responsabilidade dos autores, mas as dos que encomendam esses artigos e as empresas que os redigem e arregimentam os "ghostwriters".
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OUTRO LADO
Companhia nega ter recrutado um falso autor
DA REPORTAGEM LOCAL
Contatada pela Folha, a AstraZeneca negou as acusações. "Esse manuscrito não é um exemplo de "ghostwriting'", disse Steve Brown, porta-voz da companhia. "O autor concordou em liderar uma revisão com base em sua experiência clínica, publicações anteriores e a crença de que uma discussão ampla ampliaria a segurança da terapia com warfarin."
A AstraZeneca também soltou comunicado oficial: "A maioria das companhias farmacêuticas, incluindo a AstraZeneca, usa escritores profissionais para auxiliar no desenvolvimento de manuscritos. A AstraZeneca está empenhada em assumir o desenvolvimento de publicações de forma ética e responsável e crê que autores creditados devem estar envolvidos desde o início, devem oferecer contribuições substanciais à concepção, aquisição ou interpretação dos dados e reter responsabilidade pelo artigo." (SN)
Pesquisadora que fez denúncia defende suspensão de médicos que emprestam nome para empresas farmacêuticas
"Relação medicina-indústria não é saudável"
DA REPORTAGEM LOCAL
Para Adriane Fugh-Berman, médica autora da denúncia contra a prática de "ghostwriting" na literatura médica (o uso de um pesquisador supostamente imparcial que não se envolveu num estudo para assiná-lo e acobertar os reais autores, pagos pela indústria farmacêutica), é preciso fazer mais do que atualmente tem sido feito para coibir seu uso.
"Os cientistas que permitem que seus nomes sejam usados como autores de mentira deveriam ser expostos e talvez suspensos de publicações por algum tempo", diz a médica. Ela não prevê, entretanto, que seja possível desencorajar os médicos a ponto de fazê-los interromper a prática.
Segundo ela, hoje já não se pode saber quantos estudos foram publicados com o uso de "ghostwriters" (escritores-fantasmas).
Embora diga que alguns colegas já ganharam milhares de dólares participando de esquemas do tipo, a pesquisadora ressalta que, no seu caso, não recebeu proposta de recompensa financeira. A compensação viria meramente do prestígio gerado pela publicação (a qualidade do trabalho de um cientista normalmente é avaliada pelo número de estudos que ele publica e pelo quanto eles são citados pelos colegas). Leia a entrevista que ela deu à Folha. (SN)
Folha - Em seu artigo, a sra. diz que considera as atuais regras para declarações de interesses frouxas demais para conter o uso de "ghostwriters" por companhias farmacêuticas. Como acha que isso pode ser melhorado?
Adriane Fugh-Berman - Não há realmente regras nessa área. A maioria das companhias contrata empresas intermediárias para se distanciar, mas a prática é comum. Os cientistas que permitem que seus nomes sejam usados como autores de mentira deveriam ser expostos e talvez suspensos de publicações por algum tempo.
Folha - Por que pesquisadores aceitam ser "ghostwriters"?
Fugh-Berman - Neste caso, nenhum dinheiro foi oferecido. Então eu suponho que há quem faça pelo crédito acadêmico. Mas outros foram pagos para isso, algumas vezes milhares de dólares.
Folha - Casos como o seu são muito freqüentes?
Fugh-Berman - Sim, é bem comum. Muitos colegas foram convidados para isso. Eu fiquei chocada, depois de ver algumas correspondências da Associação Mundial de Editores Médicos, que os editores tenham ficado tão surpresos. Ninguém sabe quantos artigos escritos com autores falsos existem na literatura.
Folha - Por que a sra. decidiu revelar o caso? E por que outros que rejeitam ofertas não fizeram isso?
Fugh-Berman - Eu realmente não pensei que isso fosse novidade. Quando eu recebi o manuscrito forjado para avaliar, eu só queria que os editores soubessem de suas origens e esperava que eles não o publicassem. Eu pensei que era de conhecimento amplo o fato de que isso acontecia, com muitas companhias e muitos autores, mas eu achei que pudesse ao menos evitar que um deles fosse publicado. Fui encorajada pelos editores [do "Journal of General Internal Medicine"].
Folha - A sra. acha que sua postura poderá encorajar outros a pesquisadores a revelar o que está acontecendo?
Fugh-Berman - Não. Os médicos invejam os que são pagos pelas companhias farmacêuticas. A relação entre a medicina e a indústria farmacêutica é profunda, complexa e nada saudável. Elas deveriam ser cirurgicamente separadas com regulamentações. Empresas farmacêuticas não deveriam ter permissão para financiar publicações ou seguir com atividades de educação médica.
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